Como fazer um parágrafo argumentativo

Em uma dissertação, os parágrafos mediais compreendem o que chamamos de argumentos; eles são, comparando a redação dissertativa a um corpo humano, uma grande “barriga” que abrigará em seu bojo exemplos, aproximações, justificativas e evidências, e que propiciará o “nascimento” de um bom texto.

É preciso, no entanto, saber usá-los bem, evitando, assim, os defeitos de argumentação que tornam o texto frágil; portanto, nada de noções confusas de caráter amplo e vago, afirmações genéricas, uso de conceitos que se contradizem ou instauração de falsos pressupostos. Além disso, bana de sua dissertação gírias, clichés, lugares comuns, além do emprego de circularidade.

Tome-se aqui a palavra circularidade a repetição exaustiva dos mesmos exemplos, críticas e pontos de vista no eixo de um só texto. É defeito grave na construção dos parágrafos argumentativos porque é agente empobrecedor de argumentação. Girar ao redor de um falso eixo de argumentos, repetir o que já foi dito é, certamente, uma articulação perigosa de ideias, se é que isso possa ser chamado de “articulação de ideias”. À circularidade, dá-se um nome muito conhecido: “operação enche-linguiça…”

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Observe bem o seguinte texto:

Texto I

Ensinar o século 21

(Tese) A “crise da educação”, espectro que assombra quase todos os países, não pode ser resolvida dentro das salas de aula. Nem mesmo se houver um computador e uma conexão com a Internet em cada uma delas.

(Argumentação) Um dos objetivos primordiais da educação é o de simular, na classe, a vida real dos alunos do futuro. É por isso que se estabeleceu um sistema de educação compulsória1 para a massa quando a Revolução Industrial convocou trabalhadores para as fábricas com produção em massa e os escritórios fundados sobre o mesmo modelo. Gerações e gerações de estudantes foram enviadas à linha de produção das escolas, onde realizaram trabalho rotineiro e repetitivo ao longo de anos, e então foram submetidas a testes-padrão, como produtos recém-saídos das correias.
Hoje, em todo o mundo – até mesmo nos países “high tech ” -, centenas de milhões de crianças ainda são submetidas a esse regime obsoleto, que simula um futuro que muitas delas jamais experimentarão.
Para simular a realidade com que se depararão as crianças, a educação em si mesma tem de se transformar em uma atividade na qual a hora e o lugar não tenham importância. E isso significa que muita coisa deve acontecer fora, e não dentro, das salas de aula.
Uma educação que prepare as crianças para o século 21 deve combinar cinco elementos.
Primeiro, a informática; “o computador na sala de aula” é o mantra da moda, deve-se aproveitar as vantagens do potencial do PC ligado à Internet, embora muitos professores saibam menos sobre computadores que os alunos. Segundo, a mídia: os meios de comunicação não podem ser ignorados pelos professores: o mundo é feito de mensagens; terceiro, os pais. O comportamento deles é sempre indicativo de como estar no mundo e, muitos deles são ausentes em tudo, senão alienados intelectuais. .0 quarto elemento é a comunidade: ela é responsável por fiscalizar as escolas, torná-las um universo melhor, onde realmente se ensine para o futuro e, por fim, o quinto: professores. Devem ser o máximo possível disponíveis, bem informados, acessíveis, atualizados; sobretudo, devem comprometer-se com o futuro, habilitar seus alunos ao pensamento crítico e lógico, melhorara cada instante seu intelecto e o dos homens do futuro.

(Fecho) Projeto utópico? Não, se considerarmos que o mundo caminha para a redescoberta dos verdadeiros valores. E um valor verdadeiro é, sobretudo, aquele que não se pode, numa sociedade pasteurizada, retirar dos indivíduos: os atributos do saber, o bom desempenho pelo intelecto, a conquista através da competência.

Alvin e Feidi Tofíler, Folha de S. Paulo

Como você pode perceber, embora seja um texto de jornal e tenha sofrido alterações mínimas ao ser adaptado, organiza-se sob a forma de dissertação (tese, argumentação e fecho). Os argumentos são claros e indicam 5 saídas básicas para a crise na educação. Tais argumentos, de forma numerada, vão sendo desenvolvidos e formam um todo argumentativo, sem circularidades, lacunas, interrupções de raciocínio.

Mas, as perguntas são sempre as mesmas: como argumentar? De que forma sequenciar esses argumentos? Há alguma maneira de tentar organizá-los metodicamente? Tomemos como exemplo o tema educação. É possível argumentar por:

1.  Exemplificação simples:

Exposição de dados conhecidos, divulgados pelos meios de comunicação:

“A presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), Maria Helena Guimarães de Castro, calcula em 7 milhões os casos mais graves, nos quais o atraso escolar é de duas séries ou mais.”

Folha de S. Paulo

2.  Argumentação histórica, fazendo trajetórias comparativas (sócio-político-culturais ou geográficas):

“O número de anos que um trabalhador coreano gastou estudando antes de obter um emprego chega a ser o dobro do tempo passado na escola por um empregado brasileiro. Essa diferença na qualificação da mão-de-obra faz a diferença…”

Folha de S. Paulo

3.  Hipótese:

“Nesse ritmo, e com o decréscimo do número de jovens em idade escolar nas próximas gerações, será mais difícil para o Brasil aumentar sensivelmente a escolaridade de sua força de trabalho e, assim, conseguir competir em pé de igualdade com seus concorrentes comerciais da Ásia, por exemplo.”

Folha de S. Paulo

4.  Interrogação, questionamento, reflexão:

“O que aconteceu historicamente? O que aconteceu socialmente? Desvalorizados no salário, desvalorizados no status, o próprio recrutamento desses professores passou a ser feito entre aqueles que tiveram acesso aos cursos de pior qualidade.”

Prof. Malta Campos, Folha de S.Paulo

5.  Definição (abrir uma gama de definições encadeadas):

“Municipalização no ensino é quando o governo do Estado transfere para as prefeituras a responsabilidade de gerir escolas; para tanto, é preciso transferir recursos, treinar pessoal técnico-administrativos e conseguir apoio da comunidade para o desenvolvimento integral dos alunos.”

Folha de S. Paulo

6.  Constatação (cuidado com os truísmos):

“É -muito diferente a possibilidade de municipalização (da educação) em município rico, em município pobre, em município grande, em município pequeno.”

Folha de S. Paulo

7.   Questionamento (refutação) de valores, juízos e conceitos):

“Não adianta, por exemplo, pôr muito dinheiro nas escolas sem equacionar a formação dos professores – o problema central do ensino brasileiro; também não adianta ter políticas públicas que não levem em conta as diferenças regionais.”

Folha de S. Paulo

8.  Perspectiva (antecipações eventuais de resultados):

“Vejo quatro pontos fundamentais para melhorar a qualidade da escola. O primeiro é a busca da melhoria permanente de professores, o segundo é a direção da escola, o terceiro é autonomia da escola, o último é a autoavaliação. Caso as instituições se dignem a, insistentemente, serem seus próprios juízes, julgadores, teremos em meados do século XXI uma escola de verdade.”

Folha de S. Paulo

9.  Oferecimento de dados estatísticos:

“De cada 1.000 alunos que se matriculam na primeira série de uma escola pública, apenas 43 se formarão dentro do tempo mínimo de 8 anos. Em média, os que conseguirão chegar ao final do curso demorarão 12 anos para obter seu diploma.”

Folha de S. Paulo

10.  Causa-consequência:

“A situação do Sul hoje é melhor do que a do Sudeste porque existe uma cultura de valorização da escola por parte da população que, inclusive, permeia e pressiona os governantes. Essa cultura não existe em outras regiões.”

Folha de S. Paulo

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