Tutorial sobre crase – Aprenda tudo!

Cada situação comunicativa exige um tipo de linguagem: a seleção linguística que utilizamos numa conversa entre amigos pode, certamente, ser diferente da que usamos numa entrevista de emprego.
Uma dissertação de vestibular exige, por sua vez, o domínio das construções gramaticais que atendem a norma culta, como forma de uniformizar o tratamento linguístico dado pelos candidatos ao tema e permitir, assim, a comparação entre os recursos de que cada um dispõe para se expressar. Dentre os tópicos a serem estudados pelos candidatos, a crase é dos mais importantes.

Crase é o nome dado à contração de duas vogais “a”. Para representá-la, emprega-se o acento grave indicativo de crase (à). Note que o acento não é a crase, mas sim o sinal utilizado para simbolizar a fusão de duas letras “a”.

Essa contração pode se dar entre vogais “a” que pertencem a determinadas classes gramaticais. Vejamos as hipóteses a seguir:

1.1. Contração da preposição “a” e do artigo definido feminino singular “a”:

Entregamos a mercadoria à vendedora. (Entregamos a mercadoria ao vendedor.)

Nós deveríamos ter ido à festa. (Nós deveríamos ter ido ao encontro.)

1.2.  Contração da preposição “a” e do artigo definido feminino plural “as”:

Fez referência às novas informações. (Fez referência aos novos fatos.)

A ausência de artigo plural à frente do substantivo impede o uso do acento. observe:

Fez referência a novas informações. (Fez referência a novos fatos.)

1.3.  Contração da preposição “a” e do pronome relativo “a qual”:

A moça à qual me refiro saiu. (O rapaz ao qual me refiro saiu.)

1.4.  Contração da preposição “a” e do pronome demonstrativo feminino singular “a”:

Esta camisa é igual à que comprei. (Este casaco é igual ao que comprei.)

1.5.   Contração da preposição “a” e dos pronomes demonstrativos “aquele”, “aquela”, “aqueles”, “aquelas” e “aquilo”:

Refiro-me àquele aluno.
Refiro-me àquela aluna.
Refiro-me àqueles alunos.
Refiro-me àquelas alunas.
Refiro-me àquilo que ocorreu ontem.

2. Casos obrigatórios de emprego do acento grave

2.1. Na designação das horas:

Chegarei à meia-noite. Chegarei às dez horas. Chegarei à uma hora. (Chegarei ao meio-dia.)

Nas frases em que se indicar um intervalo de tempo e não a designação das horas, não se pode empregar o acento. veja:

Chegará daqui a uma hora. (Chegará daqui a dez minutos.)

Nas frases em que se indicar um intervalo de tempo decorrido, emprega-se o verbo haver diante das horas, verifique:

Chegou há uma hora.

2.2. Em locuções de núcleo feminino

Estava ali à vista de todos.
Atiravam à queima-roupa.
Veremo-nos à noite.
Saíram às pressas.
Pedi um filé à moda do chefe.
Às vezes vou à praia.

Nas frases em que ficar implícita a presença da expressão moda de após o à, emprega-se o acento grave. veja:

Comerei um bacalhau à (moda de) Gomes de Sá. Usava o cabelo à (moda de) Elvis.

Apesar de não se utilizar artigo à frente de prazo na expressão a prazo, utiliza-se o acento grave na expressão à vista, a fim de evitar ambiguidade. Verifique:

Evite comprar a prazo.

Compre sempre à vista.

Mude-se para o Alto Leblon e compre a vista. (= a paisagem)

Não se emprega o acento grave nas expressões abaixo. Observe:

Isso não vale a pena.

(Isso não vale o esforço.)

Faça suas provas sempre a tinta / a caneta / a máquina.

(Jamais faça prova a lápis.)

Encontraram-se face a face.

Tome o remédio gota a gota.

(Caminhava passo a passo.)

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3. Casos facultativos de emprego do acento grave:

3.1. Antes de nome próprio feminino:

Dei isto a / à Maria. (Dei isto a/ao Pedro.)

3.2. Antes de pronome possessivo feminino:

Dei isto a / à minha irmã. (Dei isto a / ao meu irmão.)

Observe que o acento é facultativo porque o uso do artigo diante de nome próprio e de pronome possessivo também o é.

3.3. Antes de pronome de tratamento:

Entregue isto a / à Sua Alteza.

3.4. Após a preposição até:

Foram até a / à praia. (Foram até o / ao clube.)

Observe que o acento é facultativo porque o uso da preposição a depois de até também o é.

4. Casos especiais de emprego do acento grave:

4.1. Diante do nome de logradouros, o uso do acento varia conforme o emprego de artigo. Verifique:

Foram a Roma.
(Vieram de Roma.)

Foram à bela Roma.
(Vieram da bela Roma.)

Voltaremos a casa mais tarde.
(Sairemos de casa mais tarde.)

Voltaremos à casa de mamãe mais tarde.
(Sairemos da casa de mamãe mais tarde.)

Os marinheiros desceram a terra.
(Os marinheiros estavam a bordo)

Os marcianos viriam à Terra?
(Os marcianos gostariam da Terra?)

4.2. Nos objetos indiretos, o uso do acento depende de paralelismo com o emprego de artigo no objeto direto:

Prefiro carro a moto.

Prefiro turma de 5ª. série a de 8ª.

Prefiro o carro à moto.

Prefiro a turma da 5ª. série à de 8ª.

Lembre-se de que os VTDI devem ter um OD e um OI:

Informou as alunas (OD) da novidade (OI). Informou às alunas (OI) a novidade (OD).

5.  Casos proibitivos de emprego do acento grave:

5.1. Antes de palavra masculina:

Tenho direito a descanso. Eu gosto do filé a cavalo.

5.2. Antes de verbo:

Fui obrigado a sair de sala.

5.3. Antes de artigo indefinido:

Fomos a uma festa.

5.4. Antes de pronome:

Dei os livros a todos. Refiro-me a ela. Fomos a essa cerimônia

5.5. Após preposição

Estávamos perante a lei.

Análise de tema de redação da VUNESP

Depois das últimas leituras aqui no site nas quais falamos a respeito da construção do texto dissertativo, seus constituintes e de analisar alguns textos que falam sobre o processo de construção da dissertação no Enem, chegamos a um artigo com uma análise de tema de redação proposta pela VUNESP. Leia-a e, em seguida pratique muito para chegar afiado no vestibular e Enem.

Como eu disse, vamos demonstrar esse processo analisando a proposta de redação do vestibular da Vunesp em 2001.

Algumas pessoas dizem que os exames vestibulares são injustos e que não medem com precisão o conhecimento dos candidatos. Outras afirmam o contrário: os exames vestibulares das principais universidades do país são, no momento, os mais adequados instrumentos de avaliação e de seleção dos candidatos.
Alguns políticos sugerem que o acesso às universidades seja feito por análise de currículo, isto é, do rendimento do candidato ao longo da Escola Fundamental e Média. Outros, julgando que isso beneficiaria os alunos de escolas particulares, pleiteiam reserva de 30, 40 ou até 50 por cento de vagas nas universidades públicas para alunos das escolas públicas, único modo de evitar a injustiça social; mas há quem afirme que tal reserva também seria uma forma de injustiça, pois não premiaria o mérito, o esforço e o conhecimento dos estudantes e, além disso, esconderia o verdadeiro problema, que é a baixa qualidade do ensino nas escolas públicas.
O Enem — Exame Nacional do Ensino Médio, que busca verificar, por meio de uma redação e de 63 questões de múltipla escolha, se o estudante assumiu determinadas habilidades e competências durante o Ensino Médio, é por vezes apresentado como um possível substituto dos exames vestibulares.
Alguns professores, todavia, não concordam com essa ideia, por entender que o Exame Nacional não verifica o que é, de fato, ensinado, e que as questões de múltipla escolha não são o melhor instrumento de avaliação. Lembram também que um só exame para selecionar os vestibulandos de todo o País seria operacionalmente inviável e sujeito a erros e distorções.
Já houve quem sugerisse, na década de 70, que as universidades públicas efetuas-sem um sorteio de suas vagas, como forma de atingir todos os estratos sociais; já se sugeriu, também, que as universidades deveriam unificar seus exames vestibulares, pois isto pouparia esforços e gastos dos candidatos e de suas famílias, mas alguns analistas lembraram que tal unificação prejudicaria a liberdade dos candidatos de optar e concorrer apenas aos cursos e vagas das universidades que preferissem.
As fundações e comissões elaboradoras e aplicadoras de exames vestibulares das universidades públicas, por outro lado, declaram que incentivam permanentemente estudos e pesquisas, cujo resultado tem sido o aperfeiçoamento progressivo de suas provas como instrumentos de avaliação e de seleção.
Enquanto professores, educadores, especialistas, jornalistas, diretores de escolas e de cursos pré-vestibulares, reitores e autoridades educacionais sempre são consultados a respeito de tais temas e continuam alimentando a polemica, só raramente se pergunta a um dos maiores interessados na questão, que é o próprio candidato. Neste ano, marcado por reflexões sobre os principais problemas brasileiros, é bastante oportuno perguntar a você, vestibulando, o que pensa dos exames vestibulares e dos diferentes modos propostos ou já tentados para substituí-los. Seria para melhor? Para pior? Dever-se-ia acabar com os vestibulares ou aperfeiçoá-los? Você vê outras soluções para este problema, que tem mais de 80 anos?

Releia com atenção esse texto e, a seguir, escreva uma redação, de gênero dissertativo, sobre o tema:

Os exames vestibulares e o acesso à universidade.

Como você pôde observar, na proposição, a Vunesp reproduziu argumentos variados – tanto de educadores e comissões elaboradoras de vestibulares como de políticos, jornalistas e demais pessoas envolvidas com a questão. Em todos os casos, procurou alinhar posições que refletem diferentes pontos de vista. No fim, pede a palavra do vestibulando, o seu posicionamento.

Após ler e reler os vários argumentos, o vestibulando deveria assumir uma posição, defendendo este ou aquele processo de avaliação que daria acesso à universidade (essa seria a sua tese). Para tanto, ele utilizaria a base de alguns argumentos citados e lançaria algum argumento novo (o que constituiria o desenvolvimento de seu texto). Finalmente, fecharia o texto com uma conclusão coerente com sua tese e que estaria sustentada pelos argumentos apresentados.

Nesse caso, em que vários argumentos (e alguns contra-argumentos) podem ser apresentados, a elaboração de um esquema torna-se imprescindível.

A construção do parágrafo dissertativo

Já foi dito que, antes de redigir, é necessário planejar. E planejar envolve não só a seleção de ideias, mas a estruturação delas dentro de um texto, que será organizado em parágrafos. Portanto, é sobre essas unidades textuais (os parágrafos) que vamos falar agora.

De modo geral, um parágrafo-padrão está centrado numa ideia principal que, por sua vez, está circundada por ideias secundárias. Obviamente, dependendo do tema, do autor e do público a que se destina, podem-se encontrar as mais variadas estruturas de parágrafos. Essa concepção básica de parágrafo, no entanto, serve como modelo para nossas reflexões.







Observe este parágrafo, retirado do livro As formas do falso, de Walnice Nogueira Galvão (trata-se de um estudo sobre Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa):

Dá-se o nome de sertão a uma vasta e indefinida área do interior do Brasil, que abrange boa parte dos Estados de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Maranhão, Goiás e Mato Grosso. É o núcleo central do país. Sua continuidade é dada mais pela forma econômica predominante, que é a pecuária extensiva, do que pelas características físicas, como tipo de solo, clima e vegetação. Embora uma das aparências do sertão possa ser radicalmente diferente de outra não muito distante – a caatinga seca ao lado de um luxuriante barranco de rio, o grande sertão rendilhado de suas veredas -, o conjunto delas forma o sertão, que não é uniforme, antes bastante diversificado.

GALVÃO, Walnice N. As formas do falso. São Paulo: Perspectiva, 1972. p. 25-6.

Desenvolvem-se, no parágrafo lido, uma ideia central: a caracterização do sertão e as ideias que gravitam em torno da ideia central: a localização geográfica, a economia predominante, as várias configurações do sertão, o conjunto formado.

Tomemos outro exemplo: a abertura do prefácio de Antônio Cândido para o volume 5 da série Para Gostar de Ler (Editora Ática):

A crônica não é um “gênero maior”. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.

Analisando-se a estrutura desse parágrafo, percebe-se uma ideia central -a crônica não é um “gênero maior” -, colocada numa frase clara, concisa. Essa frase serve de introdução ao parágrafo, apresentando a ideia-núcleo que será desenvolvida adiante. A essa ideia-núcleo, que apresenta o parágrafo, convencionou-se chamar de tópico frasal.

Em outros exemplos, é possível encontrar o tópico frasal colocado em duas ou até em três frases. Um tópico frasal claro, objetivo, consistente é meio caminho andado para a obtenção de um parágrafo bem redigido.

Voltando ao texto de Antônio Cândido, percebe-se que, logo após o tópico frasal, há dois períodos que são uma argumentação do tópico frasal: a crônica não confere dimensão universal à literatura; um cronista não ganharia o Prêmio Nobel. Finalmente, observamos que o último período do texto constitui uma conclusão, retomando o tópico frasal – a crônica é um gênero menor. Observe o esquema do parágrafo:

imagem-construção-do-parágrafo

Em tempo e para matar a curiosidade. Antônio Cândido continua o texto afirmando: “‘Graças a Deus’ – seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica perto de nós”.

Dissertação ou Argumentação?

Vamos saber o que revelam os dicionários sobre os termos dissertação e argumentação.

No Dicionário Aurélio Eletrônico:

argumentação
[Do fetargumentatione.]
s.f.
1.  Ato ou processo de argumentar.
2.  conjunto de argumentos.
3.  Discussão, controvérsia.

dissertação
[Do lat dissertatione.]
s.f.
1.  Exposição desenvolvida, escrita ou oral, de matéria doutrinária, científica ou artística.
2.  Trabalho escrito, apresentado a instituição de ensino superior, e defendido, publicamente, por candidato ao grau de mestre.
3.  Discurso; conferência; preleção.

No Dicionário Eletrônico Houaiss:

argumentação
– substantivo feminino
1 arte, ato ou efeito de argumentar
2 Derivação: por extensão de sentido.
troca de palavras em controvérsia, disputa; discussão
3 Rubrica: termo jurídico.
conjunto de ideias, fatos que constituem os argumentos que levam ao convencimento ou conclusão de (algo ou alguém)
4 Rubrica: literatura, estilística.
no desenvolvimento do discurso, corresponde aos recursos lógicos, como silogismos, paradoxos etc. geralmente acompanhados de exemplos, que induzem à aceitação de uma tese e à conclusão geral e final

dissertação
– substantivo feminino
1 ato ou efeito de dissertar; exposição, redação
2 exposição escrita de assunto relevante nas áreas científica, artística, doutrinária etc; monografia
3 trabalho escrito feito por estudantes como exercício ou como prova, versando sobre algum ponto das matérias estudadas; exposição escrita
4 exposição oral; conferência, discurso
Ex.: ouvimos uma bela d. sobre a obra de Camões
5 Regionalismo: Portugal.
em universidades portuguesas, monografia final que os estudantes devem apresentar e defender para obterem o título universitário

Embora os termos argumentação e dissertação muitas vezes estejam empregados como sinônimos, cabe fazer a seguinte distinção, sob a luz das noções de gêneros e tipos textuais: a argumentação é um tipo característico de arranjo linguístico que possibilita a expressão de um ponto de vista e que pode ser concretizado por meio de diversos textos, em função da necessidade da interação social: comentários opinativos, ensaio, crítica de cinema, carta de opinião etc; a dissertação é um tipo de texto predominantemente argumentativo; trata-se de um gênero textual muito comum nas produções escolares e nos exames de acesso às universidades, bem como em exames ou monografias que procuram avaliar o desempenho de estudantes ao final de um ciclo (como o Enem, por exemplo, no caso do Ensino Médio, ou os Trabalhos de Conclusão de Curso, no caso do Ensino Superior).

Exercício com gabarito sobre dissertação

Aprender a escrever é, em grande parte, se não principalmente, aprender a pensar, aprender a encontrar ideias e a concatená-las, pois, assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou não aprovisionou. Quando os professores nos limitamos a dar aos alunos temas para redação sem lhes sugerirmos roteiros ou rumos para fontes de ideias, sem, por assim dizer, lhes “fertilizarmos” a mente, o resultado é quase sempre desanimador […] Não podiam dar o que não tinham, mesmo que dispusessem de palavras-palavras, quer dizer, palavras de dicionário, e de noções razoáveis sobre a estrutura da frase. É que palavras não criam ideias; estas, se existem, é que, forçosamente, acabam corporificando–se naquelas, desde que se aprenda como associá-las e concatená-las, fundindo-as em moldes frasais adequados. Quando o estudante tem algo a dizer, porque pensou, e pensou com clareza, sua expressão é geralmente satisfatória.







 

Dita essas coisas, vamos aos exercícios de interpretação que nos ajudarão a entender melhor as características do texto dissertativo. Quem quer fazer um bom texto precisa, antes, aprender a identificar as informações corretas a serem usadas para defender a tese que será apresentada no texto.

Exercícios para estudar dissertação

A grande lição do grande irmão

Explode no mundo a violência: terror, sequestro, assaltos, assassinatos, corrupção, tortura, humilhação, fome, dor, violência disseminada, compartilhada, globalizada. Enquanto isso, nas TVs de todo o mundo, busca-se emoldurar a realidade a partir de uma visão fortemente dominada pela “dança” dos índices de audiência. Pelo menos esta é a justificativa para a repetição incessante de fórmulas e clichês desgastados, que sempre voltam apresentados como novidade pelos programadores e concessionários das várias redes de TV
A moldura preferida no momento é o reality show, formato que chegou em nossa casa após ganhar fama internacional. Batizado com nomes sugestivos como Big Brother, Casa dos Artistas e No Limite, o reality show oferece como produto básico satisfazer o desejo dos telespectadores com cenas de exibicionismo e autoflagelo (sic). Some-se a isto a capacidade do participante ao eliminar seus adversários da competição e, consequentemente, ter sua grande chance de experimentar mais do que os quinze minutos de fama já conquistados.
Ora, que tipo de realidade é esta em que o excitante é ver o outro em situações muitas vezes constrangedoras, como ir ao banheiro diante de câmeras ou “pedir a cabeça” de uma pessoa por quem se criou afeição? Por estranho que possa parecer, a lógica dessa (re)criação remete à das lutas entre os gladiadores na Roma antiga, uma espécie de gameshow onde os participantes eram guiados por duas necessidades básicas: eliminar o adversário e exibir-se para saciar uma plateia ávida por emoções baratas e bizarras. Tanto na arena de ontem, quanto na telinha de hoje, o vencedor continua sendo aquele que consegue eliminar seus adversários mais rapidamente; e o público segue experimentando o prazer de ver o sofrimento alheio, seja com o sangue que outrora jorrava da espada, seja com a superexposição, a delação e outros ingredientes resultantes dos mais baixos sentimentos, nessa modalidade pós-moderna de combate entre iguais.
Parece que o grande irmão de Orwell¹, aquele que, na contramão dos atuais Big Brothers, suscitou tanta discussão sobre nossos medos em relação à invasão da privacidade, pode nos permitir compreender mais da realidade atual do que inspirar a luta pela audiência na TV
Afinal, enquanto seguimos negando às crianças e jovens conteúdo alternativo à sórdida e fétida fórmula baseada em sexo e violência na TV, estaremos condenados a produzir sujeitos hedonistas², reféns do consumismo e capazes de atitudes de total alheamento em relação ao outro.
Doravante, quando na hora do almoço ou jantar os jornais nacionais exibirem sem pudor nossos cadáveres, seria prudente pensarmos noutra lição deixada por Orwell: sim, é possível escapar das armadilhas do grande irmão. Caso contrário, corremos o risco de, no próximo capítulo do nosso reality show particular, sermos os protagonistas das cenas de violência que a TV expõe diariamente e que, por enquanto, tocam apenas momentaneamente nossos sentimentos, pois, afinal, dizem respeito somente aos outros.
Quanto ao possível engajamento da TV no tão falado esforço pela paz mundial, não basta meia dúzia de filmetes de 15 segundos ou dúzia e meia de “artistas” com sorriso de creme dental pronunciando palavras insossas. Talvez o que ninguém da TV ousa dizer é que esse movimento depende de outros fatores. Primeiro, do discernimento dos patrocinadores que, por hora, fomentam tudo que é produzido e cheire a pontos na audiência; segundo, dos criadores que têm buscado reinventar em muitos programas as relações humanas tendo como base a intriga, a trapaça, a traição, a superexposição da intimidade. E, finalmente, do público que, infelizmente, seja por falta de opção ou por preferência, depois de secar as lágrimas sobre o sangue derramado do último sequestrado, do último assassinado […], da última vítima do terrorista-bomba, do último bebê morto por desnutrição, não cansa de aplaudir as novas arenas e nossos quase modernos gladiadores.

¹ Referência ao Grande Irmão do livro 1984, de George Orwell.
² Hedonista: seguidor do hedonismo. Hedonismo, segundo definição do Dicionário Aurélio: século XXI, é a doutrina que considera que o prazer individual e imediato é o único bem possível, princípio e fim da vida moral.

1. O texto acima caracteriza-se como argumentativo. Considerando que nesse tipo de texto predomina a defesa de uma ideia (uma tese), de um ponto de vista, e que essa ideia é, via de regra, apresentada logo no primeiro parágrafo, qual seria a ideia central do texto?

2. Ainda em relação ao primeiro parágrafo:

a) Os autores exploram uma oposição. Qual seria? Que palavra ou expressão introduz essa oposição?

b) Em “Pelo menos esta é a justificativa […]”, o pronome esta retoma que ideia?

3. Se no primeiro parágrafo temos uma tese generalizada, no segundo essa mesma tese é particularizada. Como se dá essa particularização?

4. Num texto em que se defende um ponto de vista, a argumentação é fundamental, uma vez que apresenta fundamentos para sustentar a tese. Entre os argumentos utilizados no texto, um chama a atenção: os autores buscam semelhança entre a programação atual das TVs e algo antigo que, visto a distância, nos causa repugnância e indignação. Mencione alguns aspectos dessa semelhança.

5. Certas palavras são fundamentais para estabelecer relações entre segmentos do texto argumentativo, estabelecendo entre eles significados. São os conectivos (notadamente as conjunções) e outras palavras que, dependendo do contexto, não se enquadram em nenhuma das dez categorias gramaticais (são classificadas como palavras denotativas: até, mesmo, também, então etc).

Aponte, no texto, o emprego de algumas dessas palavras.

6. Nos textos argumentativos é muito comum o autor assumir uma “postura de filósofo”, ou seja, de indagação sobre tudo. As perguntas, além de ajudarem na estruturação do texto, funcionam como prováveis questionamentos de um virtual interlocutor ou como recurso para inserir determinado argumento (na verdade, servem para organizar o nosso pensamento, estimular nossas reflexões).

Aponte, no texto, um recurso desse tipo. Ele é utilizado como possível questionamento ou para introduzir um argumento?

7. Os dois últimos parágrafos (introduzidos pelo advérbio doravante, ou seja, “de agora em diante”, “para o futuro”) representam uma mudança em relação aos parágrafos anteriores. Comente a nova linha de raciocínio apresentada neles.

Gabarito dos exercícios

Antes de começarmos , é importante dizer que a palavra auto-flagelo não está dicionarizada. Mantivemos a forma como foi grafada no texto originai. O equivalente dicionarizado seria autoflagelação.

1. As TVs de todo o mundo buscam emoldurar a realidade a partir de uma visão fortemente dominada pelos índices de audiência.

2.
a) O primeiro período mostra a realidade nua e crua, a partir de suas facetas mais cruéis: a violência. O segundo período nos mostra a realidade emoldurada, ou seja, a realidade transformada e apresentada no quadrilátero da telinha de TV. A expressão “enquanto isso” introduz a oposição. Além disso, há a oposição fórmulas e clichês desgastados/novidades.

b) “[…] uma visão fortemente dominada pela ‘dança’ dos índices de audiência.”, ou seja, os índices de audiência justificam a retomada de velhas fórmulas e clichês desgastados.

3. No primeiro parágrafo o texto fala que “nas TVs de todo o mundo, busca-se emoldurar a realidade” (portanto, uma tese generalizada); no segundo parágrafo, dando a entender que as molduras são variáveis, comenta-se a moldura do momento, ou seja, os reality shows.

4. Os autores aproximam os reality shows das lutas entre gladiadores da Roma antiga. Dois aspectos são destacados: exibir-se para saciar uma plateia ávida por emoções baratas e bizarras e a necessidade de eliminar o adversário.

É importante destacar que, na Roma antiga, por mais que o público gritasse, ovacionasse, pedisse um ou outro lutador, a palavra final era de César, que fazia o sinal com o polegar para cima ou para baixo (símbolo maior do poder de um César: o poder de vida e de morte). Já nos reality shows, em que temos a eliminação física de um concorrente (o eliminado sempre abandona um determinado espaço físico), o poder de excluir um ou outro cabe tanto aos concorrentes como ao público, todos transformados em Césares na realidade emoldurada.

5. “Pelo menos” (primeiro parágrafo); “ora” (abrindo o terceiro parágrafo); “afinal” (abrindo o sétimo parágrafo).

6. O terceiro parágrafo inicia-se por uma pergunta, que serve para introduzir uma argumentação (Vale notar o papel relevante da conjunção ora, que já denuncia o posicionamento do falante).

7. Os dois últimos parágrafos lançam perspectivas sobre o que fazer para mudar o jogo (ou: como escapar das armadilhas do Grande Irmão). Os autores negam as falsas soluções (artistas sorrindo e falando palavras de ordem vazias) e discutem que as verdadeiras soluções passam por nova postura de anunciantes, programadores e público.

Um texto permite infinitas leituras?

E é essa relação de posições histórica e socialmente determinadas – em que o simbólico (linguístico) e o imaginário (ideológico) se juntam – que constitui as condições da produção da leitura. (…)
De forma bastante resumida, podemos dizer que há relações de sentidos que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele não diz, mas poderia dizer, e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. Essas relações de sentido atestam, pois, a intertextualidade, isto é, a relação de um texto com outros (existentes, possíveis, ou imaginários).

ORLANDI, Eni

Entre os diversos sentidos que a palavra leitura pode apresentar, destacamos aquele que nos interessa aqui: o sentido que está diretamente ligado à linguagem de qualquer natureza e, em especial, à linguagem verbal. Nesse sentido, a leitura será entendida como o processo pelo qual um sujeito leitor atribui significados a um determinado texto.

A partir dessa delimitação, algumas questões podem ser levantadas. Entre elas, uma está ligada à quantidade de leituras que um texto pode permitir; a outra refere-se a possibilidade de se ensinar a leitura.

Um texto permite infinitas leituras? Ou: É possível fazer qualquer leitura de um texto?

Ninguém lê num texto o que quer, do jeito que quer e para qualquer um. Tanto quanto a formulação (emissão), a leitura (compreensão) também é regulada. No entanto, ler (…) é saber que o sentido pode ser outro.
Dessa forma, só a referência à história permite que se diga, de uma leitura, se ela compreendeu menos ou mais do que “devia”. Porque, sem dúvida, na multiplicidade de sentidos possíveis atribuíveis a um texto – Rimbaud diz que todo texto pode significar tudo -, há uma determinação histórica que faz com que só alguns sentidos sejam “lidos” e outros não.

(ORLANDI, Eni R, op. cit, p. 12.)

Dizer que um texto permite infinitas leituras – entendendo-se aqui “qualquer leitura”- é um engano.

Mesmo o texto literário, que é polissêmico, limita os significados possíveis e os não possíveis, justamente por estarem ou não circunscritos a uma série de aspectos ligados à própria constituição do texto. Isso elimina a possibilidade de se fazer qualquer leitura de um texto – o que se faz são determinadas leituras.

Um texto sempre mediará significados que um dado sujeito deseja transmitir. Há, portanto, os referentes e as intenções (de dizer isto ou aquilo) concretamente construídos nele. O sujeito que lê, porém, também tem sua história, que influencia sua leitura. Uma consequência imediata desse fato é que a pluralidade de leituras torna-se possível. Mesmo porque a própria organização do texto (utilização do vocabulário, construção de frase, estrutura de texto) contribui para essas várias possibilidades de sentidos quando se encontra com o imaginário do leitor.

Essas possibilidades, porém, sempre são limitadas pela organização textual, que, aliás, traz também os elementos para que o leitor possa entrar nos significados do texto e ele próprio atribuir os seus. Podemos dizer que há “chaves” para se abrir um texto. Essa chave pode ser uma referência histórica, o emprego de uma palavra ou de uma figura de linguagem, ou ainda o diálogo aberto, implícita ou explicitamente, com outro texto – ora cada um desses elementos separadamente, ora vários deles atuando simultaneamente.