Um texto permite infinitas leituras?

E é essa relação de posições histórica e socialmente determinadas – em que o simbólico (linguístico) e o imaginário (ideológico) se juntam – que constitui as condições da produção da leitura. (…)
De forma bastante resumida, podemos dizer que há relações de sentidos que se estabelecem entre o que um texto diz e o que ele não diz, mas poderia dizer, e entre o que ele diz e o que outros textos dizem. Essas relações de sentido atestam, pois, a intertextualidade, isto é, a relação de um texto com outros (existentes, possíveis, ou imaginários).

ORLANDI, Eni

Entre os diversos sentidos que a palavra leitura pode apresentar, destacamos aquele que nos interessa aqui: o sentido que está diretamente ligado à linguagem de qualquer natureza e, em especial, à linguagem verbal. Nesse sentido, a leitura será entendida como o processo pelo qual um sujeito leitor atribui significados a um determinado texto.

A partir dessa delimitação, algumas questões podem ser levantadas. Entre elas, uma está ligada à quantidade de leituras que um texto pode permitir; a outra refere-se a possibilidade de se ensinar a leitura.

Um texto permite infinitas leituras? Ou: É possível fazer qualquer leitura de um texto?

Ninguém lê num texto o que quer, do jeito que quer e para qualquer um. Tanto quanto a formulação (emissão), a leitura (compreensão) também é regulada. No entanto, ler (…) é saber que o sentido pode ser outro.
Dessa forma, só a referência à história permite que se diga, de uma leitura, se ela compreendeu menos ou mais do que “devia”. Porque, sem dúvida, na multiplicidade de sentidos possíveis atribuíveis a um texto – Rimbaud diz que todo texto pode significar tudo -, há uma determinação histórica que faz com que só alguns sentidos sejam “lidos” e outros não.

(ORLANDI, Eni R, op. cit, p. 12.)

Dizer que um texto permite infinitas leituras – entendendo-se aqui “qualquer leitura”- é um engano.

Mesmo o texto literário, que é polissêmico, limita os significados possíveis e os não possíveis, justamente por estarem ou não circunscritos a uma série de aspectos ligados à própria constituição do texto. Isso elimina a possibilidade de se fazer qualquer leitura de um texto – o que se faz são determinadas leituras.

Um texto sempre mediará significados que um dado sujeito deseja transmitir. Há, portanto, os referentes e as intenções (de dizer isto ou aquilo) concretamente construídos nele. O sujeito que lê, porém, também tem sua história, que influencia sua leitura. Uma consequência imediata desse fato é que a pluralidade de leituras torna-se possível. Mesmo porque a própria organização do texto (utilização do vocabulário, construção de frase, estrutura de texto) contribui para essas várias possibilidades de sentidos quando se encontra com o imaginário do leitor.

Essas possibilidades, porém, sempre são limitadas pela organização textual, que, aliás, traz também os elementos para que o leitor possa entrar nos significados do texto e ele próprio atribuir os seus. Podemos dizer que há “chaves” para se abrir um texto. Essa chave pode ser uma referência histórica, o emprego de uma palavra ou de uma figura de linguagem, ou ainda o diálogo aberto, implícita ou explicitamente, com outro texto – ora cada um desses elementos separadamente, ora vários deles atuando simultaneamente.

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